- Que sacola é esta?- pergunta Lucia, em pleno café da mnhã.
-
Uns cds que estou levando pra Mari... Joguinhos... Joguinhos de computador...
-
Que bom que vocês ficaram amigas! Agora ao menos você tem com quem conversar! E
ela é uma menina tão inteligente, tão meiga!
-
Só. To indo nessa. Tchau.
-
Até depois, querida! Eu e seu pai vamos para a chácara em Ponta Grossa com a
Marta e o Marcelo daqui a pouco e voltamos só no domingo à tarde. Vou deixar um
dinheiro em cima da geladeira pra você comprar comida. Tenha uma boa aula!
-
Ok. Boa viagem pra vocês... - “YES!!!” - Pensa Natalie com o alívio de quem
poderá ficar em paz ao menos por um fim
de semana.
O colégio está em
polvorosa pois no fim do mês haverá um festival de música que está sendo
organizado pela prefeitura e várias bandas e músicos devem se apresentar na
Casa de Cultura e no anfiteatro ao ar livre da cidade, apelidado pelo povo de “orelhão”
por causa do formato de concha. A notícia saiu na rádio local e já estava se
espalhando entre os adolescentes que já faziam planos para comparecer em massa,
afinal, cairia no início das férias, e nunca havia nenhuma novidade. Muita
gente de fora viria participar tanto se apresentando como para assistir ao
evento, que seria junto com a “Festa do Suíno”, uma feira agropecuária e
gastronômica muito popular e tradicional da cidade, que se realizava todo ano.
- Natalie!!!
Natalie!! - chamou Mari, ainda no portão de entrada do colégio - Você trouxe?
- Ta aqui. - afirmou
estendendo uma sacola com uns 15 cds diferentes.
- Valeu! A gente pode
conversar depois do intervalo? Eu tenho uma aula vaga no 4o horário...
- Pode ser. Só tenho
aula até o 3o .
- Legal! Te encontro
na arquibancada da quadra, ok?
- Falou. - Natalie
nota que os olhos de Mari estão inchados como se tivesse chorado.
Melyssa e Denise se
aproximam e Natalie deixa o grupo em direção a sua sala de aula.
- E daí? A esquisita
vai te ajudar? - pergunta Denise.
- Já está ajudando!
Me trouxe este monte de cds!
- Nossa!! Olha a capa
dessas coisas!! Que bicho horrível!! - Exclama Melyssa olhando pra a capa de um
álbum do Iron Maiden. - só podia ser coisa dessa doida!!
- Nada a ver... Ela é
bem gente boa!
- Pronto! Virou amiga
da pirada! - caçoa Denise.
- Vamos ver... Iron Maiden, Black Sabbath, ... Slayer... AC/DC, Metallica... Tristania... Sentenced...
Nigthwish... Nossa! Quanto nome estranho!... O que a gente não faz por um
carinha gatinho! - diz Mari.
- Eheheheh!!! - riem as
outras.- Com certeza!!
Hugo entra pelo
banheiro da escola e fecha a porta com a chave que roubara da diretora no ano
anterior. Olha pela pequena janela dos fundos e lá está Doox parado embaixo de
uma arvore no bosque aos fundos do colégio. Ele se aproxima e tira um pequeno
pacote debaixo do moletom verde - limão e entrega pela janela. Hugo confere o
pacote e entrega algumas notas de 50 e 20 para Doox, que conta as cédulas, faz
um sinal de ok com a mão e vai embora do mesmo jeito que chegou. Hugo coloca o
pacote dentro da calça e deixa o banheiro em seguida.
“Smiling, with the mouths of the ocean, and I wait for you, with the
eyes of the mountain! I
see you!!!!” - Faith No More tocando no walkman e um pacote de batatas fritas
aberto no colo. Natalie está sentada no degrau mais alto da arquibancada quando
Mari chega e senta ao lado.
- Oi!
- E dae! Diga lá...
- Caramba!! .E muito
Cd!! Nem sei por onde começar!!
- Comece ouvindo os
mais antigos. Eu botei um papel com a ordem pra você poder entender como ouvir.
Assim fica mais fácil de compreender o rock, heavy metal e suas vertentes...
- E?...
- Ué? Vai pra casa e
escuta!
- Sabe... To a fim de
fumar um cigarro... Vamos lá atrás?
- Demorou...
Já
nos fundos da escola, Mari começa a chorar e Natalie fica sem entender nada.
-
Que foi, Mari? Aconteceu alguma coisa? - “Porra! Essa também é nova! A guria ta
chorando na minha frente!!”
-
Desculpa... É que eu estou nervosa...
-
Por causa do carinha da internet?
-
Que me dera... É que ontem depois que voltamos do jantar ... meu pai estava
bêbado.. e... Putaquepariu!! Não sei como te dizer...
-
E?... - Natalie já quase desconfiava do que iria ouvir... e teve medo de
ouvir...
-
Ele... bom... Minha mãe já tinha ido dormir , ele sabe que ela tem o sono
pesado ... e a casa é muito grande, eu tinha descido pra tomar um copo de água
...e ele estava sentado no sofá da sala com uma garrafa de conhaque ...- E
ele... ele tentou me violentar... - Mari começa a soluçar de novo.
Natalie
sente um oco no estômago e instintivamente abraça Mari e quando percebe também
está chorando...
-
Mas. Ele conseguiu fazer alguma coisa? - Natalie pergunta ainda com os olhos
úmidos.
-
...não... Eu empurrei ele e saí correndo pela sala e depois me tranquei no
quarto até hoje de manhã... Não sei o que fazer...
-
Você contou isso pra mais alguém? Pra sua mãe?
-
Não... Só pra você... Não sei bem por que mas só consegui pensar em contar pra
você... Sei lá... Parece que você é a única pessoa confiável... E olhe que a
gente só se conhece, tipo assim, a gente conversa mesmo, a alguns dias... Tenho
medo. E você me pareceu uma pessoa tão legal ontem... Você me ouviu, a gente
conversou... Sabe, eu tenho um bando de amigas, mas a gente nunca conversa
sério. Elas sempre ficam falando do celular novo, do carro novo do pai, dos
amigos virtuais do orkut... Porra, eu também gosto dessas coisas, mas não dá
pra falar só disso!! É foda!!!
-
Ta’, perai... Calma... Ele já tentou isso outras vezes?
-
Não... Não dessa forma... Mas eu já peguei ele mexendo nas minhas gavetas,
pensei que estava procurando drogas, ou desconfiando de algo assim como todo
pai, mas um dia achei uma calcinha minha no bolso de uma calça dele quando
coloquei no cesto de roupa suja... Depois vi que ele ficava me olhando de um
jeito estranho na piscina do clube, ou quando eu saía do banho... Cacete! Que
coisa horrível!!!
-
Você está muito abatida... Vai fazer o que agora?
-
Sinceramente não sei...
-
(Não acredito que vou fazer isto...) olha... meus pais viajaram e só voltam
amanhã... Não ta a fim de ir lá pra casa agora? A gente come alguma coisa e
qualquer coisa você liga pra sua mãe ir te buscar lá quando estiver saindo do
consultório...
-
Posso? Mesmo?... Não vou te incomodar?
-
Incômodo foi o que você passou ontem... Acho que voltar agora pra tua casa não
é uma boa idéia... Pelo menos até você se acalmar.
-
Puttz... Valeu mesmo Natalie! Vou ligar pra minha mãe no caminho!


