quarta-feira, 6 de junho de 2012

#3 - "Rape me... Rape me my friend..."


           

- Que sacola é esta?- pergunta Lucia, em pleno café da mnhã.
- Uns cds que estou levando pra Mari... Joguinhos... Joguinhos de computador...
            - Que bom que vocês ficaram amigas! Agora ao menos você tem com quem conversar! E ela é uma menina tão inteligente, tão meiga!
            - Só. To indo nessa. Tchau.
            - Até depois, querida! Eu e seu pai vamos para a chácara em Ponta Grossa com a Marta e o Marcelo daqui a pouco e voltamos só no domingo à tarde. Vou deixar um dinheiro em cima da geladeira pra você comprar comida. Tenha uma boa aula!
            - Ok. Boa viagem pra vocês... - “YES!!!” - Pensa Natalie com o alívio de quem poderá ficar em paz  ao menos por um fim de semana.
O colégio está em polvorosa pois no fim do mês haverá um festival de música que está sendo organizado pela prefeitura e várias bandas e músicos devem se apresentar na Casa de Cultura e no anfiteatro ao ar livre da cidade, apelidado pelo povo de “orelhão” por causa do formato de concha. A notícia saiu na rádio local e já estava se espalhando entre os adolescentes que já faziam planos para comparecer em massa, afinal, cairia no início das férias, e nunca havia nenhuma novidade. Muita gente de fora viria participar tanto se apresentando como para assistir ao evento, que seria junto com a “Festa do Suíno”, uma feira agropecuária e gastronômica muito popular e tradicional da cidade, que se realizava todo ano.
- Natalie!!! Natalie!! - chamou Mari, ainda no portão de entrada do colégio - Você trouxe?
- Ta aqui. - afirmou estendendo uma sacola com uns 15 cds diferentes.
- Valeu! A gente pode conversar depois do intervalo? Eu tenho uma aula vaga no 4o horário...
- Pode ser. Só tenho aula até o 3o .
- Legal! Te encontro na arquibancada da quadra, ok?
- Falou. - Natalie nota que os olhos de Mari estão inchados como se tivesse chorado.
Melyssa e Denise se aproximam e Natalie deixa o grupo em direção a sua sala de aula.
- E daí? A esquisita vai te ajudar? - pergunta Denise.
- Já está ajudando! Me trouxe este monte de cds!
- Nossa!! Olha a capa dessas coisas!! Que bicho horrível!! - Exclama Melyssa olhando pra a capa de um álbum do Iron Maiden. - só podia ser coisa dessa doida!!
- Nada a ver... Ela é bem gente boa!
- Pronto! Virou amiga da pirada! - caçoa Denise.
- Vamos ver... Iron Maiden, Black Sabbath, ... Slayer... AC/DC, Metallica... Tristania... Sentenced... Nigthwish... Nossa! Quanto nome estranho!... O que a gente não faz por um carinha gatinho! - diz Mari.
-     Eheheheh!!! - riem as outras.- Com certeza!!

Hugo entra pelo banheiro da escola e fecha a porta com a chave que roubara da diretora no ano anterior. Olha pela pequena janela dos fundos e lá está Doox parado embaixo de uma arvore no bosque aos fundos do colégio. Ele se aproxima e tira um pequeno pacote debaixo do moletom verde - limão e entrega pela janela. Hugo confere o pacote e entrega algumas notas de 50 e 20 para Doox, que conta as cédulas, faz um sinal de ok com a mão e vai embora do mesmo jeito que chegou. Hugo coloca o pacote dentro da calça e deixa o banheiro em seguida.

“Smiling, with the mouths of the ocean, and I wait for you, with the eyes of the mountain! I see you!!!!” - Faith No More tocando no walkman e um pacote de batatas fritas aberto no colo. Natalie está sentada no degrau mais alto da arquibancada quando Mari chega e senta ao lado.
- Oi!
- E dae! Diga lá...
- Caramba!! .E muito Cd!! Nem sei por onde começar!!
- Comece ouvindo os mais antigos. Eu botei um papel com a ordem pra você poder entender como ouvir. Assim fica mais fácil de compreender o rock, heavy metal e suas vertentes...
- E?...
- Ué? Vai pra casa e escuta!
- Sabe... To a fim de fumar um cigarro... Vamos lá atrás?
- Demorou...
            Já nos fundos da escola, Mari começa a chorar e Natalie fica sem entender nada.
            - Que foi, Mari? Aconteceu alguma coisa? - “Porra! Essa também é nova! A guria ta chorando na minha frente!!”
            - Desculpa... É que eu estou nervosa...
            - Por causa do carinha da internet?
            - Que me dera... É que ontem depois que voltamos do jantar ... meu pai estava bêbado.. e... Putaquepariu!! Não sei como te dizer...
            - E?... - Natalie já quase desconfiava do que iria ouvir... e teve medo de ouvir...
            - Ele... bom... Minha mãe já tinha ido dormir , ele sabe que ela tem o sono pesado ... e a casa é muito grande, eu tinha descido pra tomar um copo de água ...e ele estava sentado no sofá da sala com uma garrafa de conhaque ...- E ele... ele tentou me violentar... - Mari começa a soluçar de novo.
            Natalie sente um oco no estômago e instintivamente abraça Mari e quando percebe também está chorando...
            - Mas. Ele conseguiu fazer alguma coisa? - Natalie pergunta ainda com os olhos úmidos.
            - ...não... Eu empurrei ele e saí correndo pela sala e depois me tranquei no quarto até hoje de manhã... Não sei o que fazer...
            - Você contou isso pra mais alguém? Pra sua mãe?
            - Não... Só pra você... Não sei bem por que mas só consegui pensar em contar pra você... Sei lá... Parece que você é a única pessoa confiável... E olhe que a gente só se conhece, tipo assim, a gente conversa mesmo, a alguns dias... Tenho medo. E você me pareceu uma pessoa tão legal ontem... Você me ouviu, a gente conversou... Sabe, eu tenho um bando de amigas, mas a gente nunca conversa sério. Elas sempre ficam falando do celular novo, do carro novo do pai, dos amigos virtuais do orkut... Porra, eu também gosto dessas coisas, mas não dá pra falar só disso!! É foda!!!
            - Ta’, perai... Calma... Ele já tentou isso outras vezes?
            - Não... Não dessa forma... Mas eu já peguei ele mexendo nas minhas gavetas, pensei que estava procurando drogas, ou desconfiando de algo assim como todo pai, mas um dia achei uma calcinha minha no bolso de uma calça dele quando coloquei no cesto de roupa suja... Depois vi que ele ficava me olhando de um jeito estranho na piscina do clube, ou quando eu saía do banho... Cacete! Que coisa horrível!!!
            - Você está muito abatida... Vai fazer o que agora?
            - Sinceramente não sei...
            - (Não acredito que vou fazer isto...) olha... meus pais viajaram e só voltam amanhã... Não ta a fim de ir lá pra casa agora? A gente come alguma coisa e qualquer coisa você liga pra sua mãe ir te buscar lá quando estiver saindo do consultório...
            - Posso? Mesmo?... Não vou te incomodar?
            - Incômodo foi o que você passou ontem... Acho que voltar agora pra tua casa não é uma boa idéia... Pelo menos até você se acalmar.
            - Puttz... Valeu mesmo Natalie! Vou ligar pra minha mãe no caminho!


Natalie e Mari estavam no meio do caminho quando Dr. Turim se trancou no seu escritório e chorou enquanto lembrava do olhar de horror da filha na noite anterior quando saiu correndo e se trancou no quarto. Já estava lá pela terceira dose de conhaque, e seus lábios estavam começando a ficar dormentes. Os processos sobre a mesa pareciam guardanapos dobrados diante da sua visão embaçada pela bebida e as mãos geladas acendiam o último cigarro do seu maço...

segunda-feira, 4 de junho de 2012

# 2 - "I don't like the drugs, but the drugs like me..."




Vítor termina de arrumar as coisas na van, enquanto isto Cacá amarra as três motos no trailer e Max pede duas pizzas e uma coca pelo telefone.

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            Dudu está usando seu relógio novo da Adidas e senta - se devagar no banco de trás do Audi para não amassar a camisa recém passada por dona Jacira, a empregada. Marta aperta - se no banco de passageiro com seu longo azul - turquesa e Marcelo pôe as luvas de dirigir, comentando com um leve sorriso que todos vão morrer de inveja do seu carro novo...

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            Em outro lugar uma menina usando jaqueta de couro maquiagem carregada, entra em uma Bmw preta e observa o olhar apático do pai no volante e a maquiagem tipicamente de festa contrastando com o vestido verde - água da mãe...

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            Pereba enche a boca com uma coxinha e Doox está apanhando feio de Bocão no jogo de luta “Capcom vs. SNK”, que brilha na tela da TV. Doguinho abre a porta e senta -se no sofá, como de costume.
            - E aê cara!! - Diz Bocâo com um berro
            - Aê. - Doguinho se limita a acenar com a cabeça - venderam as parada?
            - Só!! O Igor ta fumando pra caralho!! Só hoje vendemos cinquentão pra ele e pros amiguinhos! - responde Doox, largando o joystick e abrindo uma lata de cerveja.
            - Galera, vamos sair fora! Minha velha deve ta chegando! Quem sabe a gente não dá uma chegada lá no lago, pra fumá um...? Daí a gente fica pirando perto da água e depois pára no boteco do seu Joca pra comer uma parada... - diz Bocão.
-     Demorô. - responde apaticamente Doguinho.
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Clube de Campo Laguna - diz a placa de metal fundido sobre o pórtico de entrada. O carro segue pela ruazinha pavimentada e logo se pode ver o salão de festas do clube todo iluminado, e mais além o lago e a represa. O estacionamento está bem cheio de carros novos e pode - se sentir o cheiro de carne grelhada saindo dos fundos da cozinha.
- Ao menos tire esta jaqueta horrível, Nana! Não acredito que você está usando esta maquiagem... Se eu soubesse antes poderíamos ter ido à “Model’s Hair” dar um jeito neste cabelo também...
- Mãe, eu estou aqui. Já não basta não? Dá um tempo!
- Vamos querida. O pessoal do jogo de bocha já deve ter chegado. Vamos tentar organizar um campeonato lá na chácara.
- Vamos Natalie!
            - ...aleluia! Ela me chamou pelo nome!
            - Você disse alguma coisa?
-     Não... Nada, mãe. Vamos nessa.

O salão está iluminado e já se pode ver o prefeito Paulo Cezar e a 1a dama, Dona Mirtes conversando com o cardiologista  Dr. Franco e Isabela, sua esposa. Mais a frente Jonas, o dono da distribuidora de bebidas Santa Rita conversa com o maitre Samuel, para se certificar que não faltou nada no bar. Em um canto afastado, próximo à lareira, as demais esposas se reúnem para conversar futilidades, e perto do bar os homens se juntam para falar sobre seus carros novos, sobre futebol e o bendito campeonato de bocha.

Celso beija a boca de Lúcia apaixonadamente, e eles se separam. Ela se junta às fofoqueiras de plantão e ele aos “tiozinhos” perto das bebidas e canapés. Natalie não se dá muito bem com os pais e não concorda com eles, mas ainda admira muito a grande paixão dos dois um pelo outro mesmo depois de tantos anos. Sente falta de Marcos, seu irmão, um cara que cuidava dela com toda a paciência, mas que ela já não via há mais de três anos, desde que fora para Curitiba fazer a faculdade. Ele sim era ao orgulho dos pais. Bom aluno, boas notas, roupas arrumadinhas, e bonito. Apesar de uma certa tristeza indefinida no olhar... Ele era um cara legal. Sempre a defendia dos pais, de “Dona Lu”, principalmente. Natalie começou a ter problemas com a mãe quando começou a ouvir “determinadas musicas” e ler “determinados livros” que sempre ganhava de presente da sua querida tia Clotilde. Tia Clô, irmã de Lúcia, foi  tatuadora até o fim dos anos 90, mas fechou o estúdio e montou um restaurante vegetariano em Porto Alegre, onde estava indo muito bem. Praticava Wicca, ou “bruxaria” como a família adora rotular... E tinha adoração pela sobrinha “Nati”. jeito carinhoso como a chamava, e como ela preferia ser chamada. Prometera que quando Natalie completasse 18 anos lhe daria uma tatuagem de presente, que ela mesma faria. Tia Clô era dez! Mas já não se viam a mais de um ano, desde que ela fizera um visita e ficara conhecida como a “doida que catava cachorros e gatos nas ruas da cidade”. Voltou para Porto Alegre com a sua van cheia de animais sem casa, para arrumar - lhes um lar. Se correspondiam por e - mail, e Clô era mais a sua mãe que “Dona Lú”

Lá na parte de fora do salão de festas haviam algumas mesas onde estavam sentados Dudu, Igor e Dan, os “três maconheiros”, como apelidara Natalie, junto com eles Mari, Denise, Julia e mais algumas patricinhas e boys da cidade.
- Oi Nana!!! - Berrou Dudu indo em direção à Natalie e lhe dando um beijo viscoso no rosto.
- Oi. - respondeu displicente, enquanto um monte de outros “ois” tão sem sal quanto o seu, replicaram da mesa.
- Que bom que você veio! Mudou a cor do cabelo de novo? - Dudu continuou a conversa forçada tentando agradar.
- É.
- Oi Nana! Preciso falar com você! - Se aproximou Mari (a “Insuportável”, segundo Natalie) - Não te vi na aula hoje! Tudo bem com você? - estalou um beijo falso na bochecha da “esquisita”, conforme a chamavam entre dentes os colegas da escola.
- Fala.
- Será que a gente podia ir ali perto do playground... É coisa pessoal... - será que ela está doida? - Pensou Natalie - esta guria me odeia! Qual é a dela em vir me contar “segredinhos”?
- Ok. Vamos mais lá pra frente, to a fim de fumar um cigarro. Ta a fim? - Perguntou estendendo a carteira de hollywood
- Não... Obrigada!
- Diga lá.
- Ai, to meio sem jeito...
- ? Que foi?
- Bom, lá vai: Eu conheci um guri na internet, e ele ta vindo pra cá daqui um mês pra me conhecer...
- E o que eu tenho a ver com isso?
- Pois é, é que ele gosta do mesmo tipo musica que você e eu não conheço nada de rock, e queria que você me desse umas dicas... Sei lá, me emprestasse uns cds... To com medo de parecer burra pra ele! - “Porra, mas você  já é uma anta!!! Ahahaha!!! Vamos ver até onde isto vai...”
- Mas do que ele gosta exatemente?
- De rock, ué?
- Que tipo de rock?
- Ué, e tem disso? Não é tudo a mesma coisa?
- Claro que não! Tem heavy metal, death metal, doom metal, gothic metal, indie rock, punk rock, alternativo, etc...
- Putamerda!! Fudeu!!... Ai , desculpa!!
- “Caramba, esta é nova até pra mim... Essa guria falando palavrão!!” - Ahahaha!!! Num dá nada! Você não lembra de nada que ele te disse?
- Ah, ele falou de uns não - sei - o - quê - metal! Mas eu tô boiando! Dá uma “bola”?
-     Você fuma?...
-     É... Escondido... Até das minhas amigas...
-     Pega um. - Natalie estendeu o maço para Mari
- É que eu fiquei com vergonha! - disse acendendo e dando a primeira tragada. - Pode me ajudar?
- Ok. Vamos ver o que eu posso fazer. Te levo uns cds amanhã no colégio e uns endereços de sites pra você dar uma olhada.
- Valeu mesmo!! Eu nunca procurei nada na internet sobre o assunto!  Que idiota que eu sou!
- Com certeza!! - Disse Natalie
- Ahahahaha!!!! Você é gente boa!
- Você também não é tão idiota quanto eu pensava! Ta vendo, o cigarro é um fator socializante!
-     Ahahahahah!!!

Um chevette velho parou perto do lago, do outro lado da represa. Bocão que já tinha tirado habilitação, veio dirigindo. O cheiro de maconha saiu em lufadas quando a porta se abriu e Doox logo deitou na grama orvalhada da noite. Doguinho e Pereba estavam dividindo uma barra de chocolate quando avistaram Igor ao longe conversando com uma garota que parecia ser
Denise, a filha do vereador Polak.
- Caras, vamos garantir uma graninha pro fim de semana? - alardeou Pereba.
- Caraca! O maconheirinho boy ta na área!! To ligado! Ta tendo uma parada dos grã - fino no clube! Vamo chega lá!! - Falou Bocão dando um gole no gargalo da garrafa de vinho vagabundo.
- Ce fica aí, Dogue? - o negrão fez um sinal de positivo como polegar.
- Vamo lá! To ligado que a filhinha do vereador é chegada num pó de vez em quando! Ela comprava do Totó, mas depois que ele saiu fora pra Sampa, deve estar sem fornecedor! - disse Doox entusiasmado.


“Dona Lú” ergueu um brinde entre as madames pela volta do seu filho para as férias. Nádia, uma psicóloga casada com o advogado Dr. Turim, complementou “ - Aos nossos filhos, então!”
- E por falar em filhos, - Começou Nádia, onde estará minha Mariângela?
- Deve estar paquerando algum gatinho! - Brincou a 1a dama Dona Mirtes.
- Não acredito! - Disse “Dona Lú” - apontando para o murinho do lado de fora - Ela está lá, conversando com a Nana! Isto é um milagre! Esta menina anda tão anti - social!
- Nossa Lu, que bom! Espero que estejam se dando bem! Já se conhecem desde o Jardim de Infância, mas nunca as vi conversando antes! - comentou Nádia.
- Estão até rindo! - exclamou Lu - Isto merece outro brinde! “À nova boa influência para a minha filha Nana!!!” - e as outras, como um coro de galinhas velhas, repetiram: - “Tim, tim!!!”

Igor era um garoto de 17 anos, olhos claros e apesar de algumas poucas espinhas, sempre foi popular com as meninas.
- Ai, melhor não Hugo! Meu pai está por aí... Pode acabar vendo...
- Nem esquenta! A gente tá longe do salão!
- Quando que a gente vai contar que estamos namorando?
- Dá um tempo... Eles vão saber logo! - E beijou a boca úmida da falsa moralista.
- Ta tudo bem... A gente fala com eles no fim de semana...
- E aí, igor , belêz? - Disse Doox saindo de trás de uma árvore junto com Bocão.
- Que ce ta fazendo aqui , cara! - Espantou - se o “conquistador”.
- Nada de mais... A gente só tava dando um role e te vimos de longe, resolvemos dar um oi... E...
- E?...
- ...perguntar se você e tua namoradinha não tão a fim de um bagulho... Sacumé, né? Camarada é pra essas coisas...
- Deixa eu falar Isto pro meu pai... - começou Denise
- Vai lá... Aí eu digo que você comprava umas paradas do Totó ... E acredite, eu posso provar! Lembra da mensagem que vc deixou no celular do Totó?... Pois é... antes de ele viajar eu comprei o celular dele e as senhas da cx postal também... EU precisava conhecer os clientes... ehehehe...
- ô cara... deixa disso... - tentou acalmar Hugo.
- Nada a ver cara, Na boa... Só vim ver se vcs não Tão a fim de negociar... Nem quero estressar vocês... Foi mal aí, Dê!
- Ta legal, mas eu vou querer uma carinha extra de pó... - emendou a garota. - pode ser?
- Aê!! Agora falou minha língua!! Na boa!! E você Hugo, ta fim de alguma coisa?
- O de sempre. Não... Melhor... Me arruma 250 g? Erva.
- Pra já ou pra amanhã?
- Entrega tudo amanhã... No mesmo lugar de sempre. O meu e o dela. Te pago lá.
- Falou camaradinha! Té manhã! - Pode sair daí Pereba. Ta limpo! - Pereba sai de trás de uma moita e se junta aos companheiros em direção ao Chevette do outro lado do lago.
            - Este fim de semana vai ser uma festa!! - comenta Melyssa...
            - Se vai!! - Completa Hugo com um sorriso na face...


domingo, 3 de junho de 2012

#1 - Bem - vindos à Perfeição...



A cidade de Perfeição não existe. Poderia ser qualquer lugar, em qualquer país, ou poderia lembrar uma cidade da infância de muitas pessoas, mas na verdade é um lugar que fica na imaginação de quem lê estas palavras. Perfeição pertence à você! Faça o que quiser com ela, mas por hora, me deixe usá - la como palco para os meus personagens.
O ano pode ser qualquer um, mas me atenho ao momento presente.
Perfeição é um lugar peculiar com pessoas peculiares, que como toda cidade pequena, tem uma praça, uma igreja grande, postos de gasolina, bares, botecos, pessoas boas e pessoas más.
Logo depois da rodoviária, perto da entrada da cidade fica uma das praças, que faz parte do Teatro Municipal. Um lugar arborizado, com pequenas fontes e lagos artificiais, uma pista de skate, ciclovias, banquinhos e é o lugar perfeito para a turma de arruaceiros formada por Doox, Pereba, Doguinho e Bocão se reunir e beber nas noites do fim de semana. Doox, o “líder” usa um cabelo moicano a la “Neymar” amarelo e gosta de roupas grandes e coloridas, Pereba é um magrelo sardento de cabeça raspada amigo de infância de Doox que tem mania de imita - lo no modo de vestir. Doguinho é um negrão calado que sempre usa boné e Bocão, um cara grandalhão, um pouco mais velho que os outros, cabelos muito pretos e que fala pelos cotovelos, justificando assim seu oportuno apelido. Logo depois da praça e além do Teatro fica a Igreja Católica, onde as senhoras se reúnem para discutir religião e tagarelar sobre a política local.

Natalie sempre tem um par de fones no ouvido, uma fita cassete de heavy metal no walkman, e um cigarro escondido no fundo do porta moedas dentro da sua mochila. Sempre dá um jeito de pular o muro do Colégio Estadual e se esconder na Praça dos Pinheiros para fumar sossegada. Não tem muitas amigas... Na verdade não tem nenhuma amiga. Cidade pequena... Uma adolescente de 17 anos que usa roupas pretas o tempo todo, coturnos do exército e pinta o cabelo de cores anti – naturais, acaba sendo pouco popular entre “os normais” do colégio, onde a maioria das outras garotas da mesma idade estão mais preocupadas em pedir um telefone celular novo aos pais, ou em comprar alguma roupa da moda. Apesar da aparência estranha, os meninos sempre a assediam, mas ela os despreza categoricamente, por serem um bando de “caipiras”, como ela mesmo os define, que preferem brigar por causa dos seus times de futebol e passar boa parte do tempo falando sobre os modelos novos de pick - up que apareceram na Modena Veículos, a maior (e talvez única...) loja de carros importados da cidade.
Natalie nasceu em Perfeição, mas nunca se sentiu parte da cidade. Sente - se uma estranha no ninho.
Enquanto Natalie falta à aula de biologia, sua mãe, Lúcia está sentada na sala de casa tricotando a vida alheia com Marta, esposa de Marcelo, dono da já citada loja de automóveis importados. Lúcia é uma típica “socialite de  interior”. O marido, Celso passa a maior parte do tempo fora da cidade, é pecuarista, dono de várias fazendas de gado no Mato Grosso e Goiás, e “Dona Lú”, como é conhecida na “alta roda” perfeicionense, passa o tempo todo arrumando novas formas de gastar o dinheiro do marido com futilidades e maneiras diferentes de obrigar sua filha caçula se “ajustar” à sociedade. Dona Lu culpa a prima Clô pelas mudanças de Naná (Apelido que Natalie odeia!!!), afinal...
-  “Foi aquela hippie desajustada que resolveu dar uma maldita maleta com uma coleção de fitas K7 para Naná, quando ela fez doze anos! Aquelas porcarias que ela ouvia desde a adolescência, e que eu pensei que já havia jogado fora!!! Mas sabe como é, né?!! Uma vez ovelha negra, sempre ovelha negra!!! Isto sem falar nos livros esotéricos que ela sempre mandava pelo correio! Quanta besteira!! Não posso acreditar que minha filhinha, que era tão meiga quando pequena, acabasse acreditando nestes absurdos!! E aquelas roupas, então??
- Ai, Lu, que fardo hein? E pensar que ela e o Dudu estudavam no colégio Bom Pastor, o mais caro e conceituado da cidade, diga - se de passagem! Que triste, amiga! Se bem, que o Dudu também anda se comportando um pouco mal ultimamente .. As notas caíram bastante, desde que ganhou aquela moto do Marcelo! O menino só quer saber de andar por aí com o caçula dos Kamovisky e aquele rapazinho filho do novo dono da distribuidora de bebidas! Ai, mas ele vai ver só! Vou cortar o cartão de crédito Teen dele se me aprontar mais alguma! Ah, se vou!!
- Pois é, Marta! Eu já não sei mais o que fazer com a Naná!! Bem, ao menos as notas dela sempre foram ótimas, apesar das faltas que ela nunca explica direito... Mas o Marquinhos é que está me dando orgulho!! Está terminando a faculdade de agronomia na PUC, lá em Curitiba e deve voltar para as férias de junho. Logo, logo ele já vai poder ajudar o Celso com as fazendas!
- Nossa, não vejo este menino já há uns três anos!! Ele deve estar um moço lindo!! Tem o porte do Celso e os teus olhos!
- Obrigada! Ele está lindo! Nas últimas fotos que nos mandou pela internet ele estava participando de uma pequisa de campo no morro do Marumbi! Parecia tão maduro, junto com os colegas!
-     Que bom que ele está se dando bem na capital!!
-     Blá,blá, blá.....
-     Bló, bló, bló...

Neste meio tempo, Dudu acendia um baseado junto com Igor (o caçula dos Kamovisky), e Dan (o filho do novo dono da distribuidora de bebidas Santa Rita), escondidos atrás do muro do colégio.

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Vítor, Marx e Cacá desciam despreocupadamente a encosta do morro em direção às motos paradas perto dos trilhos do trem. Cacá trazia uma garrafa de vinho de pêssego pela metade, Marx carregava um mochila e Vítor comia uma barra de chocolate enquanto fumava um Marlboro...

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Mariângela vestiu a blusa chamativa de griffe sobre a camiseta do colégio e Denise pegou sua mochila nova (com bolsinho individual para o celular na alça!) e desceram a escadaria do colégio comentando:
-     Você viu a Naná por aí hoje?
-     Não... Na verdade só na primeira aula. Por quê?
Ai, aquela guria é muito estranha!!
            - É... Com certeza!! Parece um manequim de funerária!
            - Ahahaha!!! Só! Mas o que você queria com ela?
            - Ai,  é que, tipo assim... Ai é complicado!!
            - Fala!!
            - Ta bom! Lembra do carinha que eu conheci na internet?
            - O cabeludo?
            - Isso!! Então... Ela conhece um monte dessas bandas de rock, e eu queria pedir uns cds emprestado e perguntar sobre umas bandas... Sei lá! De repente ela me manda albuns links de coisas pra eu conhecer pelo msn e tal...
            - Alôou!! Como assim? Vai começar a curtir essa barulheira deste povo estranho? Pô, já não chega o meu primo com aquelas camisetas do “Slipcroc”, ou sei lá eu o quê!
            - Não! É que o menino vive falando de umas musicas que eu nunca ouvi falar, ele disse que vai vir pra cá daqui uns dias pra me conhecer pessoalmente, e eu...
            - Não quer parecer ignorante sobre o assunto...
            - Isso mesmo!! E a única pessoa que me ocorreu foi a doida da Naná... Afinal ela entende tudo sobre esquisitice..
            - É mesmo!! Nossa, o que que é aquele cabelo roxo!!
            - Mês passado tava verde...
            - Que horrível!!!
-     Nem fale!...


Enquanto Mari e Denise destilavam seu veneno sobre a cor de cabelo de sua colega, Doox estava na praça do teatro bebendo “Caninha 51” junto com Bocão e ironizando...
- Cara! Os “prêibói” são muito massa!
- Só!! Se não fosse pela “generosa contribuição”, a gente não tinha se livrado daquela erva e não estaríamos aqui tomando um goró da hora! E ainda sobrou uns trinta real pra gente compra mais umas parada pra fazê uns rabo - de - galo! Sem fala que minha mãe ainda fez umas coxinha muito da boa! Depois dá pra gente ir lá em casa e joga o playstation que o Dudu compro pra paga a dívida da outra remessa! E ainda dá pra...
- Porra cara!! Ce fala pra caraio!!! Depois agente vê o que róla!! Vamo fuma um careta e aproveitá o goró !!!
- Só!! Ah!! Já te contei uma parada que eu fiquei sabendo do Carvalho? Pó cara, ontem eu tava na internet e...

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A porta da frente se abre e Natalie entra, mal olhando para a mãe que ainda está pendurada ao telefone. Sobe as escadas e se fecha em seu quarto.
- um... dois... três... quatro... cinco...
            - Naná, podemos conversar?      

Previsível, pensa Natalie.

            - Detesto este apelido.
            - Ai, filha, não seja tão amarga! Seu pai está chegando daqui a pouco e hoje nós vamos a um jantar que a Marta e o Marcelo estão oferecendo no clube em comemoração à reforma do estádio do Clube Atlético Perfeição. O prefeito Paulo César e a 1a dama, dona Mirtes estarão lá e eu quero que você use aquele vestidinho verde que eu comprei semana passada! Você vai ficar linda com ele!
            - Detesto aquele vestido.
            - Nana! Você bem que podia fazer a sua mãe feliz ao menos uma vez! Pôxa filha, você é tão bonita, por que não valoriza esta beleza usando uma roupa mais alegre! Você fica com um aspecto doente vestida assim! E além do mais o Dudu vai estar lá! Ele não é um gatinho?
            - Mãe, o Dudu é um maconheiro, a dona Marta é um porre e o seu Marcelo só fica falando do quanto a loja dele faturou este ano e de como foi legal a viagem para as Bermudas, Bahamas ou sei lá eu que porcaria mais! Não to a fim de ir!!!
            - Ai, Nana... por isso que você não tem amigas! Ficar por aí falando estas coisas horríveis de um menino tão querido como o Dudu! Você vai sim! E papo encerrado! Almoce e esteja pronta as sete  horas!
            - Ok. “Isto fica feliz em ser útil!” Mas pode esquecer o vestidinho verde!
            A porta se fecha e Natalie liga uma música do “Sentenced”. “Dead moon rising!” - é o que diz o refrão...